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A cultura pueril não gosta de crianças e muito menos de velhos

Domingo, 18.07.10

 

Esta constatação fi-la já há muito tempo, mas hoje é com enorme perplexidade que a repito aqui. Perplexidade, pela indiferença geral relativamente a esta completa ausência de sensibilidade e de responsabilidade da cultura pueril em relação a estas duas fases fundamentais de uma comunidade: a infância (as promessas de futuro, a lógica da continuidade da vida, a inteligência viva e desafiadora) e a velhice (a experiência, a sabedoria, as sínteses, as histórias, a memória). Uma comunidade sem crianças nem velhos  está condenada.

Um exemplo surpreendente da indiferença geral (com algumas excepções de pais preocupados e de um ou dois jornalistas atentos): o fecho previsto de quase mil escolas pelo país fora. A criançada deve ser desenraizada das suas comunidades para melhor aprender a ser modernaça.

Um exemplo do cinismo em relação aos mais velhos: a forma pueril como se fala da morte antecipada.

 

A cultura pueril vive no eterno presente, não quer envelhecer. Ela própria comporta-se como criança mimada, logo deve ser o centro das atenções. Deve cuidar de si, da sua pele, evitar as rugas, ter as mordomias todas que o dinheiro pode adquirir. Dar-se a todos os luxos e extravagâncias, não ter limites para as suas fantasias pueris e caprichosas. No seu mundo não há limites para nada, nem para os seus desejos impulsivos: quero e obtenho.

Onde é que a criança entra aqui? Como um objecto maleável à nossa imagem e semelhança, um protótipo de alguém modernaço como nós. Alguém que podemos treinar para macaquear sucessos escolares e desportivos para mostrar aos amigos pueris como nós. Crianças precocemente envolvidas nas questões modernaças da cultura pueril.

E os velhos? Deles quer distância. A velhice é uma doença a evitar e há sítios próprios, há soluções. São essencialmente um fardo, uns chatos. Já não produzem e o que produziram já passou de prazo. O passado não interessa. Nós somos o futuro, nós os modernaços.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:15

Do Tempo das Descobertas: A Última Viagem

Sábado, 05.12.09

  

De novo Avelino Abilheira, a sua voz poética,  n' A Última Viagem, um conto que lembra um filme, que é, de certo modo, um filme, quase documentário: 

 

 

" A Última Viagem

  

Levava muito tempo a fugir, pelos arrabaldes da cidade, entre os cascalhos das casas derrocadas, alimentado às vezes nas provisórias cozinhas de outros humildes resistentes onde havia sempre uma fotografia amarela dum ausente. Levava muito tempo sem ver rostos amigos, sem reunir-me em abraços de palavras para imaginarmos um novo mundo que nunca chegaria, levava tempo assediado por fuzis como uma presa de caça, a dormir num rés-do-chão abandonado ou num desvão sem vidros, de olhada sempre alerte, portando apenas o meu saco cruzado em bandoleira com umas poucas coisas.

Semanas atrás salvara-me no último instante ao saltar pela janela posterior que dava para um pátio em ruínas justo quando soldados com emblemas de terror golpeavam na porta. Só tivera tempo de apanhar o dinheiro restante e umas pertenças na minha bolsa. Levava muito tempo num mundo impalpável entre a vida e a morte, ideando como sobreviver sem comprometer ninguém. Eu sabia que se me apanhavam me matariam, e não era consolo pensar que não era o único. Matar-me-iam por pensar, não por ter matado jamais. Eu não levava armas, apenas a consciência. Não levava ódio, apenas a tristeza. Eu sabia que não era um mártir: Naquela guerra e naquela horrível pós-guerra que duraria sempre não éramos heróis nem covardes, apenas resistentes. Nenhum dia deixei de conceber a utopia, a igualdade de todas as mentes, a beleza de todos os corpos. Sim, poderia ter matado se fosse inevitável. Mas, sobretudo, poderia ter amado muito mais se os tiranos dum país desfeito não perseguissem sempre as pessoas que pensam diferente, que amam diferente, que falam diferente, que escrevem diferente. Eu não queria morrer, mas tampouco viver dessa maneira.

À noite anterior por fim me decidira. Ocultara-me para descansar escassamente nas latrinas duma escola fechada que conhecia bem na parte alta da cidade. Dormira no lixo aonde os inimigos eternos querem enviar todas as letras: pelos corredores ainda havia restos de volumes queimados. Na manhãzinha saíra do esconderijo com prudência, decidido a abandonar a cidade para sempre. Poderia morrer a procurá-lo. Poderiam detectar-me à luz do outono. Mas era dia de maior movimento de gentes nos portos, nos mercados, na estação, e talvez houvesse fortuna.

Durante horas desci num dilatado zigue-zague entre ruelas populares, sem olhar para o chão como suspeito nem fitar no rosto dos vigias, dos constantes confidentes que recebem em troca da denúncia um pedaço de pão e umas moedas. Não devia pisar os mesmos lugares duas vezes para não ser reconhecido. Não devia caminhar por ruas vazias nem afastar-me das zonas populosas. Não devia falar com ninguém. Assim pude aproximar-me pouco a pouco do destino: a estação do caminho-de-ferro.

Sabia que pouco depois do sol-pôr um longo trem partia para longe, para cruzar toda a noite o meu país e outros países ocupados. Era a minha última esperança. Seria a minha última olhada à cidade que me acolhera, a que continha tantos cadáveres amigos, onde deixara o meu quarto diminuto, livros e símbolos ocultos debaixo das tábuas, um ferrugento leito de amor à luz da tarde enquanto dois corpos despidos imaginavam o infinito, onde deixara uns pobres alimentos, a companhia dum gato ocasional que visitava, uma lâmpada de óleo, uns retratos da infância familiar, algumas prendas com antigo recendo a salitre, a tinta, a lareira.

Consegui entrar na estação na hora mais ocupada da tarde em que regressa e chega muita gente. A zona estava contagiada de uniformes homicidas que procuravam presas em babujante matilha, intimidando e detendo gente para saciarem os trasbordantes matadouros. Dissimulei-me e pude obter uma passagem para o ponto mais distante do trajeto. Depois, durante horas, pervaguei ainda pelas ruas para voltar à estação pouco antes da partida. Levava todo o dia sedento, esfomeado, mas era jovem, forte, e animava o meu corpo um perseverante latejo quase doloroso, uma esfera de sangue inapelável porque continha uma herança de séculos humanos de utopia.

Chegou o entardecer. A poucos minutos da partida, num momento de menor perigo, pude deslizar-me e entrar no trem com figurada calma. Percorri pelo corredor algumas carruagens e escolhi um compartimento quase vazio perto da cabeça. Uma camponesa de longa saia cor de terra, socos, pano negro e um cesto de alimentos ocupava o assento da janela que olhava para a entrada da estação. Saudámo-nos. Compreendi que há gente que viaja de costas ao futuro, olhando com saudades como o passado se esvaece. Outra viaja defrontando o porvir, de costas ao vivido. Eu sentei-me em frente da mulher, a olhar para o infinito por achar, sem dar o rosto ao cais.

O angusto compartimento foi enchendo-se plenamente: uma moça delgada, um jovem macilento, uma parelha anciã com sotaque estrangeiro, duas mulheres semelhantes de cabelos recolhidos... Pelo corredor continuavam a transcorrer figuras que buscavam lugar dentro, prosseguiam, ficavam de pé junto às janelinhas do outro lado: um casal com três crianças, uma adolescente, um marinheiro eivado com muletas... Acumulavam-se as bolsas nas estantes superiores do nosso reduzido espaço, tocavam-se os limites dos corpos que se iam acomodando. Cheirava a madeira idosa, a carvão, a vapor, a terra, a pó, a maçã, a calor, a pele triste. Comprimiam-se os perfis, estendiam-se as sombras, esvaiam-se as formas como se fôssemos um único animal antigo. Oito corações vibravam contra o ritmo da máquina de ferro que aquecia com urgência.

 

De súbito intui virar a cabeça para espreitar os movimentos dos carrascos na gare. Vi mover-se rapidamente um oficial que guiava quatro soldados rumo ao comboio. Buscavam faces nas carruagens finais, com bruscos acenos quebrados, como autómatos. Em ocasiões paravam, elevavam as cabeças, continuavam. Já estavam perto da nossa carruagem.

Soou um zunido de vapor. Eu olhei para longe, para o porvir que estava decidido a alcançar, oferecendo apenas um tranquilo perfil aos militares. O trem inteiro rangeu, senti o golpe da primeira pernada, o mundo moveu-se para atrás, iniciou-se a familiar língua metálica das viagens, o trem trespassou a estação, abriu-se a última luz obscura do dia sobre casas de arrabalde e hortas intestinas, e por fim surgiu o monte, o ar, o campo aberto da fugida.

No compartimento olhámo-nos um a um, sem falarmos. O nosso corpo múltiplo amoleceu e respirou. Compreendi que, duma maneira ou outra, todos fugíamos de algo rumo a algum território de sossego. Levantei-me e baixei parcialmente a janela para deixar entrar o ar húmido da terra própria. Inauguraram-se então breves diálogos cruzados, sem alvo, para mostrarmos que estávamos aí, reunidos no imediato e no possível.

Já era noite e decorriam campos e florestas. O comboio detinha-se brevemente nos apeadeiros de pequenos lugares como células centrais dum enorme ser que a história foi matando. Entrava e saía alguma gente, e a viagem continuava. A mulher campesina subiu a cesta dos seus pés, abriu-a e ofereceu a partilha de alimentos. Outras pessoas pegaram em bolsas e sacos e houve uma balbúrdia de oferendas e agradecimentos. Eu não tinha nada que doar, apenas tabaco, e recebi de todos. E compreendi mais uma vez essa singela lógica da igualdade contra a qual os genocidas lançaram tantas guerras: Se tens, dá; se não tens, recebe. Guardei na bolsa um pequeno pedaço de pão de boroa para o caminho.

Concluiu o escasso jantar e voltaram as cortadas conversas, os cigarros, o descanso provisório nesse berço de ferro compassado que nos levava longe. Entrava para nós ar puro vegetal. Acompanhava-nos uma perfeita lua cheia, a mesma lua vedranha das marés, dos desvãos de amor, dos estanques. Íamos para um sol nascente, o mesmo sol do verão central nos campos, dos desvãos de amor, dos entardeceres sobre um rio. E chegaríamos.

Inesperadamente, numa curva cauta entre montes, o trem começou a diminuir com um forçado rangido. Fomos projetados uns contra outros. Olhámo-nos em surpresa. A jovem e eu impelimo-nos à janela para saber o que acontecia. Na cabeça do comboio viam-se sombras pretas de homens a aproximar-se e carros militares a bloquearem a via. "Soldados!", escutou-se com temor desde uma carruagem vizinha. Pela cauda do trem chegavam mais homens com armas: estávamos comprimidos na trapaça dum controle no meio do nada.

Então todos os passageiros, desde todas as carruagens, como uma população de cidade nómada, começaram a recolher com vigor as suas coisas e a fugir pelas abas monte acima, a disseminar-se pelo lado contrário monte abaixo, rumo a amplos vales nutridos por rios que acabam num mar que não acaba. Entre as árvores adivinhavam-se pontos de luz de fachos, moradas provisórias, como reclamos a proscritos. O trem foi-se esvaziando de almas enquanto os soldados corriam atirando sem fortuna contra as trevas.

A jovem delgada do compartimento era a última a sair. Desde a porta, olhando nervosa para os lados, estendeu-me uma mão e convidou-me:

—Vem! Vamos! Não há tempo!

—Não, amiga...— disse, sereno. —Ainda não cheguei ao meu destino.

—Mas vão-te matar!

—Não— expliquei. —Direi que não pertenço ao seu horror.

—Podemos começar de novo!— insistiu. —Somos poucos, e não será o mesmo. E levará anos, sim. Mas morrer não vale a pena!

Não respondi. Despedi-me dela com um sorriso e esse lento fechamento dos olhos e compasso da cabeça com que se despedem velhas amizades, e vi como ela partia, escutei como saltava da carruagem para os vales. Eu fiquei absolutamente só nessa cidade fugidia abandonada.

Voltei a sentar-me no meu lugar, de face ao porvir, com a bolsa ao meu lado. Apoiei a cabeça na janela, em calma, e fechei os olhos.

Sobressaltou-me um repetido golpe seco no vidro. Distingui numa paisagem imóvel um oficial e quatro soldados que olhavam para o interior. Virei-me para dar as costas ao exterior e aguardar a entrada deles fitando-os na cara. "Não me levarão", pensei. "Se me vêem, não serei eu quem seja visto. Se me falam, direi que não os compreendo, pois eu não vivo no seu mundo de terror". Eu não tinha armas, apenas a força da razão. Eu não carregava ódio, apenas a tristeza. Não éramos mártires. Não éramos heróis, não éramos covardes: apenas resistentes.

Nuns instantes apareceu na porta do compartimento um homem de uniforme:

—Senhor, que faz aqui?

Olhei para ele em hierático silêncio, como se pertencesse a um plano errado da verdade.

—Tem que baixar, senhor. O trem não sai.

—Não sei o que me diz— mantive a firmeza.

—Este trem dorme aqui. Leva horas parado. Temos que limpá-lo.

Fez-se uma luz brilhantíssima, metálica, pungente. Por detrás do revisor observavam-me com preocupação três mulheres e um jovem de roupas azuis, com panos amarelos e frascos de líquidos na mão. Eu sentia dores no ombro e uma enorme fraqueza nas pernas.

Tentei incorporar-me. O revisor ajudou-me do braço:

—Está mal? Chamamos um médico?

—Não...—. Apanhei a pesada bolsa. O homem ajudou-me a colocá-la no ombro e guiou-me até às escadas enquanto me observavam.

—Com cuidado...

Pisei o cais, titubeando. Um casal com muitas alfaias olhou-me com receio. Um grande relógio alto marcava as 10:35. Ecoavam na gare vozes de alto-falantes em duas línguas alternas. Jovens de prendas longas corriam para as vias com malas pequenas sobre rodas. Longos sinais luminosos anunciavam com confusas letras móveis horas e nomes de cidades.

Tirei da bolsa o meu sossegante maço de tabaco e dispus-me a prender um cigarro. Aproximou-se um guarda com um brilhante colete amarelo:

—Não se pode fumar, não vê?— apontou para um cartaz.

Quando guardava o tabaco, entrevi dentro da bolsa uma luzinha azul que piscava com raras vibrações. Apanhei o aparelho, premi sem reparar nalgum lugar e levei-o ao ouvido:

—Onde andas, homem?— era uma carinhosa voz de mulher. —Estive chamando toda a tarde.

—Não sei...

—Onde estás? Ainda no trabalho?

Olhei em redor.

—Na estação... Num trem...

—Ai, parvinho!— reconheceu ela. —Outra vez? Anda, vem para casa.

—...

—Ainda há sopa rica da tua.

Comecei a regressar, a reviver o conforto da tibieza quotidiana, a côncava nação do amor habitual.

—Já vou...

—Vou-te buscar, meu rei?

—Não, já vou...

Levava anos a fugir, em solitário, pelos arrabaldes da amizade, nas ruínas de mim próprio, sem achar rostos nem palavras. Levava anos habitando em mim mesmo, como um território autocontido, na falsa pátria íntima onde ninguém te acossa, nem te arresta, nem te increpa, nem te exige, nem te fala...

Dirigi-me à saída. Por detrás do vidro da cafetaria um homem sem barbear introduzia moedas sem descanso e premia botões numa sonora máquina de luzes. Um moço de café levava bandejas de bebidas obscuras e pratos de azeitonas a três adolescentes que riam. No alto da parede, um ecrã alongado com insistentes linhas de palavras mostrava saturadas faces planas a gritarem. No exterior recortava-se uma cobra de táxis brancos contra o perfil apagado da cidade. Caía uma poalha de água mansa.

Cheguei à cabeça da fileira de automóveis. Dois condutores de pé falavam interrompendo-se sobre números e façanhas dalgum grupo desportivo. Abri a porta posterior. Doíam-me intensamente as pernas e o ombro pela bolsa.

—Metemos isto detrás?— perguntou o taxista para ajudar-me.

—Não!— exclamei, agarrando a bolsa contra o corpo. Fechou-me a porta, sério. Olhei para a estação, despedindo-me. Começou a chover. Fazia muito frio.

Dei um endereço, e pouco a pouco moveu-se a matéria da cidade: os peões urgentes, os carros como cansos mamíferos molhados, a linguagem intermitente das luzes, essa múltipla solidão que habita nos prédios altos, os negros afluentes do asfalto, a ordem dos jardins inativos, os traços da chuva nas janelas, o bater clínico do limpa-pára-brisas, a ausência mútua de dois seres anónimos no interior duma demorada borbulha de metal que se dirige a um último destino.

A bolsa pesava-me imensamente sobre as pernas. Coloquei-a com cuidado no assento, com a mão pousada nela como num amado animal doméstico. Eu levava comigo um pedaço de pão, tabaco, vários livros de trabalho, um caderno de notas, dois livrinhos gémeos de poesia, uns postais velhos, algumas fotografias, uma cruz de Santiago, uma caixa vazia, um frasquinho cor âmbar, um anel de prata, uma doa laranja, uma pedrinha azul, três flores secas... Fechei os olhos e vi um desvão dourado, um dólmen, uma casa com flores, uma cálida cova, um quarto de madeira sob a lua. Dentro de mim soava uma cantiga numa ermida, o diálogo dos barcos no peirao, a sinfonia dos animais da noite, soava um bando imenso de estorninhos. Respirei, respirei fundamente, e vi cem rostos de amigas e de amigos, e recendeu a mar, a acácia, a ilha virgem, a papaia, a campo aberto, a abraço de amor, a carta antiga... 
"
 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:48








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